Por Lia Nasser e Simone Spadafora

A socialização, a qualidade dos vínculos e das relações de uma pessoa idosa influencia a sua saúde? Esta pergunta orientou o estudo aqui apresentado, que em 2026 entrevistou 49 usuários(as) inscritos no Centro de Convivência da Associação São Joaquim com o intuito de investigar o valor da socialização na promoção de saúde. A partir deste levantamento de dados é possível afirmar que a Convivência e a saúde estão diretamente relacionadas, indo de encontro ao que preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS). Nele, o Centro de Convivência aparece como um lugar afetivo, que acolhe, abraça. Promove pertencimento e saúde integral por meio do “território do encontro”.

De forma geral, a vulnerabilidade social das pessoas é entendida como uma conjugação de fatores que pode afetar o nível de bem-estar. Refere-se à situação socioeconômica, que está relacionada às desigualdades sociais, também a fatores como baixa renda, idade, etnia/raça, gênero, sexualidade, religião, capacidade física e mental, grau de instrução, entre outros. No entanto está comprovado que a convivência também é relevante neste contexto, sendo uma importante ferramenta de prevenção e proteção social no âmbito da assistência social no Brasil. Contribui para o fortalecimento dos laços comunitários, a promoção da cidadania e o enfrentamento das desigualdades sociais.

Neste contexto, o fortalecimento de vínculos é fundamental para enfrentar vulnerabilidades relacionais e promover a inclusão social das pessoas idosas, influenciando em sua saúde. Este conceito está no centro das políticas de assistência social, como evidenciado pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS) no Brasil. A pesquisa exploratória sobre fortalecimento de vínculos destaca a importância de mapear as relações familiares e sociais para identificar, valorizar e fomentar aquelas que oferecem apoio afetivo e proteção cotidiana. O fortalecimento de vínculos que deve resultar na socialização em um Centro de Convivência para pessoas idosas, como a Associação São Joaquim, é essencial para promover um ambiente de suporte emocional, inclusão social e bem-estar geral. Os laços resultantes da convivência contribuem para reduzir a sensação de isolamento e solidão, frequentemente associada ao envelhecimento, além de proporcionar um espaço onde as pessoas idosas podem compartilhar experiências, participar de atividades significativas para o seu desenvolvimento pessoal e conquistar novas habilidades e amizades. A interação social regular melhora a saúde mental e emocional e tem efeitos positivos na saúde física, estimulando um estilo de vida mais ativo e engajado. Portanto, o trabalho de um Centro de Convivência, voltado para o fortalecimento de vínculos, oferece um papel vital na promoção de um envelhecimento saudável, digno e pleno.

A convivência e os vínculos são um atributo da condição humana, que se dá entre sujeitos que se constituem à medida que se relacionam. Pode-se afirmar que entender o mundo e atuar sobre ele é possível somente por meio de relações sociais. O sujeito se constitui na relação com o outro.

Construímos o mundo em que vivemos e somos construídos por ele. Tudo que nos cerca existe em relação, em conjunto, não estamos separados daquilo que observamos. O envelhecimento populacional é fato. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “o tempo de complacência acabou e agora é hora de agir e priorizar a conexão”, o futuro da saúde é social.

O acolhimento é um empreendimento comunitário e a saúde é um direito de cidadania, é condição para a paz e consequência dela. O cuidado com a saúde remete-nos à valorização da vida. Acolher é atenuar a exclusão social, garantir acesso, significa não-violência, promoção da dignidade. Não acolher os outros em sua alteridade, em suas infinitas possibilidades humanas desumaniza, desumaniza-nos.

Acolhimento também denota refúgio, abrigo, agasalho – convivência afetuosa. É nela que nos tornamos o que somos e é nela que podemos nos modificar. Participar de um Centro de Convivência é construir o “conviver”, o “ser”, é sair do ciclo da exclusão social.

Humanizamo-nos à medida que compartilhamos espaço, comida, intimidade, cuidados. Somos filhos(as) do cuidado, estamos vivos graças a uma imensa rede de solidariedade. Acolher é encontrar significado para a própria existência.

A Associação São Joaquim de Apoio à Maturidade, âmbito da realização da pesquisa, presta o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) para pessoas idosas, preconizado na Proteção Básica do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).  Fundada em 2006,  inspirada na salutogênese e na visão e desenvolvimento integral do ser, atende mais de 400 pessoas idosas residentes no município de Carapicuíba-SP. No ano de 2026, realizou uma enquete com 49 usuários(as) inscritos com o intuito de investigar o valor da convivência, e da socialização, na promoção de saúde.

O Centro de Convivência, sob a perspectiva do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) no Brasil, é uma estrutura física e organizacional que visa promover a convivência e a socialização de pessoas em situação de vulnerabilidade ou risco social. Um Centro de Convivência, no contexto do SUAS, também tem como objetivo promover a autonomia e a emancipação dos usuários, oferecendo apoio para o desenvolvimento de habilidades e potencialidades, bem como o acesso a serviços e benefícios socioassistenciais. Oferece oportunidades para os indivíduos exercerem seus direitos como cidadãos, participando ativamente da vida em comunidade e contribuindo para o desenvolvimento coletivo.

Os resultados encontrados na pesquisa em questão, dialogam diretamente com a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), que define a saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças. A saúde social refere-se à capacidade de interagir com a sociedade (“direito de ser”) e formar relações interpessoais saudáveis, sendo fortemente impactada pelos chamados Determinantes Sociais da Saúde (DSS).

Os Determinantes Sociais da Saúde (DSS) – definidos de forma ampla como as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem, bem como o acesso das pessoas ao poder, dinheiro e recursos – têm uma forte influência nas desigualdades em saúde. Estas condições definem as diferenças injustas e evitáveis ​​no estado de saúde observadas dentro de um mesmo país e entre países diferentes. Pesquisas mostram que esses determinantes sociais, incluindo a socialização, podem superar as influências genéticas em termos de impacto na saúde. Abordar os determinantes sociais da equidade em saúde é fundamental para melhorar e reduzir as desigualdades históricas.

As perguntas realizadas na pesquisa foram:

  1. Em que momento da sua vida você chegou na ASJ? O que buscava?
  2. O que mudou na sua vida depois que começou a participar?
  3. Convivência tem a ver com saúde e bem-estar?
  4. Conviver na ASJ é…

Os resultados obtidos foram:

A pesquisa evidencia que a Associação São Joaquim é procurada pelas pessoas idosas em momentos de fragilidade. Solidão e perdas são a principal motivação para a busca ou encaminhamento da rede socioassistencial de uma pessoa idosa para o convívio.

Para os entrevistados, a participação na Associação promoveu melhora do estado emocional, ampliou os vínculos, a autonomia e a independência, e também trouxe novos aprendizados, maior expressão e melhora da comunicação.

Centros de Convivência para pessoas idosas são uma política pública no país, porém ainda pouco difundidos e garantidos. Constituem uma importante ferramenta de prevenção e de proteção social no âmbito da assistência social no Brasil, contribuindo para o fortalecimento de laços comunitários, a promoção da cidadania e o enfrentamento das desigualdades sociais. Sendo assim, é preciso que as práticas de convivência e de fortalecimento de vínculos sejam oportunizadas e entendidas como essenciais para a saúde,  por  combaterem o isolamento, a exclusão e a discriminação das pessoas que conquistaram muitos anos de vida. Este papel é de toda a sociedade, que deve cobrar a efetivação da política pública de proteção básica, os Centros de Convivência, mas não apenas isso. Envelhecer é viver, e não deve ser um fator que diminui o valor das pessoas em todos os âmbitos da sociedade: incluindo o poder público, as instituições e as famílias. Cada um de nós tem o seu papel na revisão do sentido e do valor do processo de envelhecimento, reconhecendo-o como uma etapa importante e natural do ciclo da vida. A saúde ou a ausência dela, portanto, está ligada também ao preconceito em relação à idade. O idadismo é estrutural e impede a visibilidade das trajetórias pessoais, reduzindo a pessoa velha a esta condição desfavorável que afeta as oportunidades de participar da sociedade em diferentes âmbitos. Apenas revendo a concepção sobre o envelhecimento poderemos viabilizar a manutenção da saúde e, em decorrência, aumentar a contribuição que as pessoas idosas podem oferecer à sociedade.

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Concepção de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Brasília, DF: MDS, Secretaria Nacional de Assistência Social, 2017.

FUNDO DE POPULAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Envelhecimento no Século XXI: um festejo e um desafio. [S.I.]: UNFPA, 2012. Resumo Executivo. Disponível em: https://www.unfpa.org/sites/default/files/pubpdf/Portuguese-Exec-Summary_O.pdf. Acesso em 10 nov.2025.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Relatório Mundial sobre o Idadismo: resumo executivo. Washington, D.C.:OPAS, 2021. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/340208. Acesso em 10 nov.2025.

SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Saúde. Projeto Acolhimento. São Paulo, 2002.

https://www.institutoamuta.com.br

https://www.who.int

https://www.paho.org/en/topics/social-determinants-health

http://www.saojoaquim.org.br