Aproximação entre as gerações | Associação São Joaquim

Aproximação entre as gerações

Fonte: Previdência Usiminas – Pela leveza da convivência entre gerações, Ano 6, Março 2018, nº 23: https://bit.ly/2Haawjp

Gerontólogo aponta o processo de educação informal, que se dá no dia a dia das relações humanas, como um dos caminhos para a contrução de uma convivência mais harmoniosa e saudável entre jovens e idosos

O ser humano é gregário por natureza. Porém, alguns valores cultuados pela sociedade contemporânea, como o incentivo exacerbado à competição e ao individualismo e a supervalorização da beleza física, têm dificultado o estabelecimento de relações interpessoais mais sólidas, afetivas e solidárias. Quando tratamos das relações entre as diferentes gerações, então, o que se verifica é um distanciamento ainda maior. Há idosos que sofrem com o isolamento e a solidão mesmo morando com a família: ora são excluídos, ora eles próprios se excluem da convivência com os mais jovens.
Mestre e doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo e especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e pela Universidade de Barcelona, o professor José Carlos Ferrigno, aponta a coeducação como o principal caminho para a ruptura desse distanciamento que se estabeleceu entre as gerações. “O resgate da proximidade, do diálogo e dos laços afetivos entre jovens e idosos depende da coeducação, que nada mais é do que um processo de educação informal que se dá no dia a dia das relações”, defende.
De acordo com o professor, os jovens têm muito a aprender com as experiências e as memórias culturais dos idosos e estes, por sua vez, também podem absorver conhecimentos importantes com a juventude, para uma melhor compreensão e aceitação dos tempos modernos. “Basta saber ouvir e valorizar o outro”, observa José Carlos Ferrigno. Como especialista que nas últimas décadas esteve mergulhado em pesquisas acerca do tema e vivências em grupos intergeracionais, ele defende o compartilhamento de valores culturais e a maior flexibilidade de uma geração perante a outra, para a ruptura do preconceito etário de ambas as partes. “Isso é perfeitamente possível, embora vivamos uma época de forte pressão social em prol da juventude eterna e de contínuo isolamento dos idosos”.

 

O diálogo, a paciência e o afeto são alguns dos ingredientes para virar o jogo e trazer qualidade às relações

Na entrevista a seguir o professor José Carlos Ferrigno aborda a questão intergeracional e alerta para a importância da sociabilização da pessoa idosa por meio de atividades de integração na família e na comunidade, além do incentivo à autonomia de cada indivíduo. Acompanhe:

Muitas vezes a dificuldade de relacionamento começa na família. Por que o distanciamento entre pais e filhos, avós e netos?

A família se constitui como o palco principal das relações intergeracionais e vive uma espécie de inevitável contradição: ao mesmo tempo em que se propõe a criar laços afetivos sólidos e duradouros, deve estimular a independência de seus jovens membros. Em decorrência da proximidade física provocada pela coabitação, conflitos podem ser frequentes na disputa pelo poder doméstico. Todavia é principalmente na família que se desenvolvem os diversos esquemas de solidariedade financeira e de cuidados de saúde.

De onde vem a intolerância para com os idosos e, por outro lado, a falta de motivação destes para lidar com os mais jovens? Como resgatar e trazer qualidade para os relacionamentos intergeracionais?

A intolerância com os mais velhos está embasada em sua suposta incapacidade física, mental e social, dentro de um contexto em que se valoriza a rapidez, a beleza física, o sucesso a qualquer custo e o domínio das novas tecnologias. Muitos idosos desistem ou nem chegam a tentar a ser interessantes para os jovens. De alguma forma, introjetam os preconceitos de que são alvos. Outros, ao contrário, de modo altivo, se impõem e conquistam a simpatia e até a admiração das novas gerações. É uma questão de postura frente à vida. O diálogo, a paciência de ouvir e o afeto são alguns dos ingredientes para virar o jogo a fim de se obter qualidade nas relações entre as gerações.

A discriminação e o preconceito ocorrem apenas por parte dos jovens com relação aos idosos ou são bilaterais?

O chamado preconceito etário é uma via de mão dupla. Há jovens indiferentes ou até agressivos em relação aos velhos e há idosos que não suportam os valores e o comportamento da juventude. Somente a aproximação para o diálogo e o exercício conjunto de atividades que façam sentido para todos pode reverter essa situação. O distanciamento entre as gerações ocorre também no mundo do trabalho. Em algumas empresas os baby boomers atuam ao lado de profissionais das gerações X, Y e Z. Porém, costuma existir certa intolerância de uma faixa etária para com a outra.

O que se faz necessário para extrair melhores resultados dessa convivência intergeracional?

No mundo corporativo o diálogo via grupos focais ou de reflexão entre os funcionários de diferentes idades pode criar condições de sensibilização para a superação de preconceitos. Os especialistas criaram uma espécie de tipologia para cada geração, dizendo como tende a se comportar um X, um Y ou um Boomer. É preciso cuidado, pois se, de fato, cada geração tem suas particularidades, tais classificações correm o risco de, em vez de melhorar as relações, reforçar ainda mais os estereótipos.

 

Programas intergeracionais podem promover a aceitação, o respeito e uma convivência mais justa e solidária

O senhor poderia citar exemplos de iniciativas e projetos criados para promover a inclusão dos idosos e sua participação ativa na sociedade?

A partir dos anos 90, os chamados programas intergeracionais passaram a se multiplicar em instituições públicas e privadas na Europa e na América Latina, principalmente em atividades culturais e de lazer. Nos Estados Unidos, desde os anos 1970, existem iniciativas de trabalho voluntário nos quais idosos em boas condições de vida auxiliam crianças e adolescentes vulneráveis ou, ao contrário, jovens saudáveis cuidam de idosos dependentes. No Brasil, o SESC foi pioneiro, nos anos 1990, na criação de programas intergeracionais.

Além de garantir mais segurança para as comunidades, como o poder público pode favorecer essa socialização e facilitar o convívio entre as diferentes gerações?

A efetivação das políticas públicas já existentes em favor dos idosos, das crianças e dos adolescentes seria um passo importante para a criação e o desenvolvimento de espaços comunitários na forma de centros de lazer e cultura, aproximando gerações. Isso significa investir em equipamentos e em pessoal especializado. A inserção de reflexões sobre a importância das trocas intergeracionais nas escolas – da educação bá- sica até a universidade – sem dúvida, seria um avanço considerável.

No Brasil, o que tem sido feito para encurtar as distâncias entre jovens e idosos e promover a integração social de forma harmônica?

Muito pouco. Mas, como já mencionei, a criação e implantação de políticas públicas em instituições culturais e educacionais, me parece um caminho promissor.

E que países estão mais avançados nesse sentido? O senhor poderia citar algumas iniciativas de sucesso?

Alemanha e Inglaterra se destacam em programas intergeracionais, incluindo-se aí programas que vão além do benefício direto a seus participantes, porque beneficiam toda a comunidade, como é o caso dos Conselhos de Bairro intergeracionais. Neles, jovens e idosos trabalham ombro a ombro pensando no coletivo.

Em Seatle (EUA), uma experiência inspiradora aproxima idosos e crianças e mostra que essa interação pode trazer ganhos bilaterais. Uma creche passou a funcionar dentro de um asilo e os dois grupos etários passaram a ter a oportunidade de uma convivência diária. O resultado é uma troca maravilhosa de valores, gentilezas e amorosidade. Os idosos passaram a se sentir menos sozinhos e as crianças, com sua curiosidade natural e abertura para o mundo, demonstram interesse em Previdência USIMINAS & VOCÊ 11 ouvir, aprender, e curtir o carinho dos vovôs e vovós. Assista o vídeo no You Tube: https://www.youtube.com/ watch?v=nQJuNDyl74M

 

Saiba mais sobre o entrevistado

José Carlos Ferrigno é, também, especialista em Gestão de Programas Intergeracionais pela Universidade de Granada, professor de cursos de especialização em Gerontologia, consultor em planejamento, acompanhamento e avaliação de programas de preparação para a aposentadoria, autor dos livros Coeducação entre Gerações e Conflito e Cooperação entre Gerações, ambos publicados pelas Edições SESC-SP e voluntário na Associação São Joaquim de apoio à Maturidade.

 

Newsletter

Gostaria de ficar por dentro das novidades da Associação São Joaquim? Preencha os campos ao lado e receba nossa newsletter.

Nossos Parceiros

(11) 4186-0520 | Estrada João Fasoli, 701 - Jardim Marilu, Carapicuíba-SP - CEP 06343000 | saojoaquim@saojoaquim.org.br

  • Instagram
  • YouTube
  • Facebook
  • Twitter